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Informe nº 926 | Curitiba, 14 de setembro de 2016

Informe nº 926 | Curitiba, 14 de setembro de 2016

A viagem da gripe

Hipócrates, considerado o pai da medicina, relatou, ainda na Grécia Antiga, a existência de uma enfermidade respiratória que vitimou centenas de pessoas e, subitamente, desapareceu. Na Idade Média, acreditava-se que o mal era causada por influência dos astros. Daí surgiu, muito provavelmente, a denominação influenza.

A gripe e a morte por ela causada, acompanha a sociedade humana desde a sua ancestralidade. O registro da crueldade da doença, do medo e do flagelo por ela impostos foi registrado por Winston Churchill em "Oh how shall I its deeds recount", traduzida livremente para o português como "Pandemia da Gripe", cujo texto traça a rota da doença do oriente até a Inglaterra, com seu rastro de dor e morte.

PANDEMIA DA GRIPE1

Oh! como posso recontar seus feitos
Ou medir o enorme número
De males que ela provocou?
Da brilhante terra celestial da China
Mesmo da sedenta terra da Arábia
Ela com o sol viajou.

Por milhas de gélidas planícies da Sibéria
Onde exilados russos laboram em grilhões
Ela se moveu com passo silencioso
E enquanto lenta se deslocava
Era seguida nos céus
Pelos espíritos dos mortos
Os picos dos Urais foram por ela escalados
E todos os obstáculos e barreiras falharam
Em afastá-la do caminho;

Devagar e seguramente ela chegou,
Precedida por sua terrível fama,
Dia a dia crescente.

Na linda e famosa cidade de Moscou
Onde caiu a primeira coroa de Napoleão
Ela medonho assalto perpetrou;

Ricos, pobres, nobres, súditos
Todos sofreram seus vários sintomas,
Todos, até que ela declinou.

Nem ventos adversos, nem inundações de chuva
Puderam deter a muito amaldiçoada desgraça;

E com a mão sem misericórdia,
Indiscriminada, cruel e severa
Ela lado a lado com o medo progrediu
E golpeou a terra germânica.

A bela Alsácia e a desprezada Lorena
Causas de amargura e dor
Em muitos peitos gauleses,
Recebem o vil, insaciável flagelo
E de suas cidades com ele emerge
Sem jamais parar ou descansar.

E agora a Europa geme alto
E abaixo da pesada nuvem trovejante
Silenciam danças e canções;

Os germes da doença abrem seu caminho
Para oeste em cada dia que sucede
E penetram na jovial França
Brava terra gálica, seus bravos patriotas
Que não temem a morte e desdenham o túmulo
Não podem se opor a tal inimigo,
Cuja repulsiva mão e impiedoso ferrão,
Cujo respirar venenoso e asa virulenta
Bem conhecem suas cidades.

No porto de Calais a doença espera,
Como fizeram os franceses em tempos passados,
Para ameaçar a ilha da Liberdade;

Mas agora nenhum Nelson pode vencer
Esse cruel e inconquistável inimigo,
Nem nos salvar de sua astúcia.

Ainda assim o Pai Netuno bem se esforçou
Para amainar essa praga do Inferno,
E frustrá-la em seu curso;
E embora ela cruzasse o limite do mar
E atravessasse essa tira estreita,
Chegou com força abrandada.

Porque apesar de destruir o vasto e profundo
Tanto vilas como cidades e campo,
Seu poder de matar acabara;

E com os ventos favoráveis da Primavera
(Abençoada é sua época que canto)
Ela abandonou nossa praia natal.

Deus escudou nosso Império contra o poder
Da guerra ou fome, pragas ou epidemias
E de todo o poder do Inferno,
E o manteve sempre nas mãos
Dos que lutam contra outras terras;
Que bem combateram e conquistaram.

_______________

1 Extraído da obra "A sutileza bem-humorada de Winston Churchill - suas grandes tiradas. Organizado por Richard Langworth e traduzido para o português por Joubert de Oliveira Brízida. Rio de Janeiro: Odisseia, 2012.

MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO PARANÁ
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