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Correio da Saúde - Informe nº 650 - 03/11/2010

CORREIO DA SAÚDE

 

O DIA EM QUE MORREMOS UM POUCO

Chamava-se Vilmar. Caíra no passeio, nas proximidades de uma unidade de saúde (UBS), onde pouco antes, debalde, pedira assistência, e a metros de um "pronto-socorro" municipal, numa rua da capital paulista. Expirou estendido no chão. Miseravelmente só.

Deu na FSP de 27 de outubro.

Talvez alguém tenha fechado seus olhos, ou coberto seu rosto com uma folha de jornal velho. Outro se persignou ao longe. Alguns estugaram os passos, outros os atrasaram propositalmente. Que dia aziago, Vilmar. Ali jazia o corpo, a olhar petrificado um céu que já não via. Por quatro horas, aguardou que o rabecão aparecesse. Quatro horas. Mais esperar, Vilmar. É assim mesmo. Há que se resignar. Espera-se na vida e espera-se na morte. Morte severina.

Estudantes de uma escola próxima, das janelas, assistiam a estúpida cena. Aprendiam de que somos feitos.

A triste ironia, Vilmar, é que deixar a vida ao pé de instituições de saúde que poderiam salvá-la, ou minorado o fim, se inexorável, quem sabe com um prosaico gesto, uma mão, um olhar. Nem isso.

Dói-me este país, escreveu, certa feita, José Saramago, dizendo de sua terra.

Dói este aqui também.

Mas estavas bem na reportagem, Vilmar. Tua imagem crescia nas linhas, inteira, incômoda, nada exagerava ou excluía. Uma bofetada a frio.

Que papel, afinal, representamos, como sociedade, na tua tragédia, tão barata, tão próxima? Há de haver respostas, mas o certo, Vilmar, é que naquela quarta-feira, pela manhã, naquela mesma calçada de Santa Cecília, junto contigo, também morremos um pouco. Miseravelmente sós.

 

Clique aqui para ler a íntegra da notícia.

 

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Referências: (links externos)
»  Homem morre em frente a PS (Notícia Folha)

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